O JUIZ RETO narra à história de um comerciante que tenta levar vantagem na possível ingenuidade
e aparente desinformação de um mendigo, mas que se dá mal no seu intento. As aparências
quase sempre enganam e não é sempre que se pode “passar a perna” nos
semelhantes. O Juiz Reto sabe discernir
entre o bem e o mal, mas é preciso a consciência do caminho reto.
Carlos
Correa
O JUIZ RETO
Ao
tribunal de Eliaquim Ben Jefté, juiz respeitável e sábio, compareceu o
negociante Jonatan Ben Caiar arrastando Zorobabel, miserável mendigo.
—
Este homem — clamou o comerciante, furioso — impingiu-me um logro de vastas
proporções! Vendeu-me um colar de pérolas falsas, por cinco peças de ouro,
asseverando que valiam cinco mil.
Comprei
as jóias, crendo haver realizado excelente negócio, descobrindo, afinal, que o
preço delas é inferior a dois ovos cozidos.
Reclamei
diretamente contra o mistificador, mas este vagabundo já me gastou o rico
dinheiro.
Exijo
para ele as penas da justiça! É ladrão reles e condenável!...
O
magistrado, porém, que cultuava a Justiça Suprema, recomendou que o acusado se
pronunciasse por sua vez:
—
Grande juiz — disse ele, timidamente, reconheço haver transgredido os
regulamentos que nos regem. Entretanto, tenho meus dois filhos estirados na
cama e debalde procuro trabalho digno, pois me recusam sempre, a pretexto de
minha idade e de minha pobre apresentação.
Realmente,
enganei o meu próximo e sou criminoso, mas prometo resgatar meu débito logo que
puder.
O
juiz meditou longamente e sentenciou:
—
Para Zorobabel, o mendigo, cinco bastonadas entre quatro paredes, a fim de que
aprenda a sofrer honestamente, sem assalto à bolsa dos semelhantes, e, para
Jonatan, o mercador, vinte bastonadas, na praça pública, de modo a não mais
abusar dos humildes.
O
negociante protestou, revoltado:
—
Que ouço? Sou vítima de um ladrão e devo pagar por faltas que não cometi?
Iniquidade! Iniquidade!...
O
magistrado, todavia, bateu forte com um martelo sobre a mesa, chamando a
atenção dos presentes, e esclareceu, em voz alta:
—
Jonatan Ben Caiar, a justiça verdadeira não reside na Terra para examinar as
aparências. Zorobabel, o vagabundo, chefe de uma família infeliz, furtou-te
cinco peças de ouro, no propósito de socorrer os filhos desventurados, porém,
tu, por tua vez, tentaste roubar dele, valendo-te do infortúnio que o persegue,
apoderando-te de um objeto que acreditaste valer cinco mil peças de ouro ao
preço irrisório de cinco peças.
Quem
é mais nocivo à sociedade, perante Deus: o mísero esfomeado que rouba um pão, a
fim de matar a fome dos filhos, ou o homem já atendido pela Bondade do Eterno,
com os dons da fortuna e da habilidade, que absorve para si uma padaria
inteira, a fim de abusar, calculadamente, da alheia indigência?
Quem
furta por necessidade pode ser um louco, mas quem acumula riquezas,
indefinidamente, sem movimentá-las no trabalho construtivo ou na prática do
bem, com absoluta despreocupação pelas angústias dos pobres, muita vez passará
por inteligente e sagaz, aos olhos daqueles que, no mundo, adormeceram no
egoísmo e na ambição desmedida, mas é malfeitor diante do Todo Poderoso que nos
julgará a todos, no momento oportuno.
E,
sob a vigilância de guardas robustos, Zorobabel tomou cinco bastonadas em sala
de portas lacradas, para aprender a sofrer sem roubar, e Jonatan apanhou vinte,
na via pública, de modo a não mais explorar, sem escrúpulos, a miséria, a
simplicidade e a confiança do povo.
Néio Lúcio

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Obrigado
Carlos Correa
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