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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

UM LADRÃO DE MACHADO


UM LADRÃO DE MACHADO narra uma história muito comum nos nossos dias em que as desconfianças e suspeitas pairam no ar numa proporção quase generalizada. São poucas as pessoas em que podemos confiar e quaisquer acontecimentos fora da normalidade nos faz crer que têm o cunho alheio. Um Ladrão de Machado é o retrato fiel da figuração dos atos de má fé que somos vítimas frequentemente, embora no caso não passou de um ledo engano.





Um homem perdeu seu machado, e desconfiou que o filho do vizinho o tivesse roubado.
Começou a espioná-lo, e tudo parecia indicar que suas desconfianças estavam corretas:
o rapaz andava como um ladrão de machado; sorria como um ladrão de machado, e seu modo de falar parecia ser hipócrita como o de um ladrão de machado.
Todos os seus movimentos tendiam a disfarçar sua culpa.
Mas, um dia, aconteceu deste homem, que perdeu o machado, cavar um lugar qualquer no vale e topar com o seu instrumento de trabalho perdido em um canto, perto do lugar onde sempre fazia seu serviço.
No dia seguinte, ele olhou novamente o filho do vizinho, e concluiu que todos os seus movimentos, todo o seu ser, nada tinham haver com os de um ladrão de machado.
Liezi teria vivido no século IV a.C., tendo sido, tradicionalmente, mestre de Zhuangzi. Teria herdado de Laozi o gosto por versos profundos, mas ao mesmo tempo iniciou a transmissão dos saberes taoístas pela via dos contos e apanágios, que tiveram seu ápice com o discípulo famoso. Isso, claro, se ele tiver mesmo existido, tendo em vista que sua vida é tão misteriosa quanto a de Laozi. Para o filosofar, porém, isso não é tão importante.
A parábola do Ladrão de Machado exemplifica a questão do preconceito e das construções irreais, que fomentamos sobre as coisas e sobre os outros, quando nos vemos em momentos de angústia ou de irreflexão. Isso só ocorreria por causa das exigências que a sociedade nos lança todos os dias: precisamos trabalhar, às vezes sem saber por que ou como. Não é importante se o serviço gera prazer ou satisfação: sua execução está vinculada a um fim, e não ao ato em si. Este fim é a sobrevivência. Mas a concepção ideológica da subsistência, como uma meta individualista, não seria a geradora justamente dos males humanos? Senão vejamos: porque o lenhador achava que alguém o havia roubado? Em princípio, porque seu machado só poderia ter sumido assim. Alguém queria levar vantagem sobre ele, e, em última análise, sobre a vida. Ele desconfia do filho do vizinho: vê nele toda a sua insegurança manifesta, a quase comprovação do delito que põe, o outro, como culpado de seu fracasso. E no final, descobre que o engano era seu mesmo.






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Carlos Correa

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